Conheça os apóstolos escolhidos por Jesus e as mulheres que estiveram presentes em sua caminhada. São histórias de fé, coragem, serviço e amor que continuam inspirando a Igreja até hoje.
Os Evangelhos mostram que Jesus chamou pessoas simples, com histórias diferentes, para serem testemunhas do Reino de Deus. Entre elas estavam os Doze, enviados para anunciar a Boa Nova, e também mulheres que acompanharam, serviram, escutaram, permaneceram junto à cruz e anunciaram a alegria da Ressurreição.
A proposta aqui é unir fé, tradição e cuidado histórico. Quando a Bíblia oferece dados claros, eles aparecem como fonte principal. Quando a informação vem da tradição cristã antiga, o texto a apresenta como tradição, sem afirmar como certeza histórica aquilo que as fontes do primeiro século não permitem comprovar. Ao final de cada figura há uma linha de referências, para quem quiser se aprofundar.
Os Apóstolos de Jesus
A seguir, os doze apóstolos recordados pela tradição católica, com São Matias no lugar de Judas Iscariotes, conforme a narrativa dos Atos dos Apóstolos. Ao final, incluímos também São Paulo que, embora não tenha convivido com Jesus na vida pública, é universalmente reconhecido como apóstolo dos povos.
São Pedro: o pescador da Galileia que se tornou referência da primeira comunidade cristã

Pedro nasceu provavelmente em Betsaida, na Galileia, e exercia o ofício de pescador antes de seguir Jesus. Seu nome original era Simão, e os Evangelhos mostram que ele fazia parte de um pequeno grupo de discípulos mais próximos do Mestre, ao lado de Tiago e João. Historicamente, Pedro representa a passagem de um movimento judaico local, surgido ao redor de Jesus de Nazaré, para uma comunidade missionária que começaria a se espalhar pelo mundo mediterrâneo.
Nos relatos evangélicos, Pedro aparece como uma figura intensa: corajoso, impulsivo, por vezes inseguro, mas profundamente ligado a Jesus. Ele é lembrado por sua profissão de fé, por sua presença na Transfiguração, por sua negação durante a Paixão e por sua reabilitação após a ressurreição. Esses episódios revelam não apenas um personagem religioso, mas um homem marcado por conflitos humanos muito concretos.
Do ponto de vista histórico, Pedro é uma das figuras mais sólidas do cristianismo primitivo. Além dos Evangelhos, aparece com destaque nos Atos dos Apóstolos e é citado por Paulo na Carta aos Gálatas. A tradição antiga afirma que ele teria ido a Roma, onde morreu durante a perseguição aos cristãos, provavelmente no tempo do imperador Nero. Embora detalhes de sua morte venham da tradição, sua importância na liderança da Igreja nascente é amplamente reconhecida.
A vida de Pedro mostra como os primeiros seguidores de Jesus não eram heróis prontos, mas pessoas comuns, formadas no caminho. Sua história permanece forte justamente porque une fé, medo, queda, arrependimento e missão.
Referências: Evangelhos (Mt, Mc, Lc, Jo); Atos dos Apóstolos; Carta aos Gálatas (Gl 1 a 2); tradição do martírio em Roma registrada na carta de 1 Clemente e por Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica).
Santo André: o primeiro chamado, que aproximava as pessoas de Jesus

André era irmão de Simão Pedro e, como ele, pescava no mar da Galileia. O Evangelho de João conta que, antes de seguir Jesus, ele fora discípulo de João Batista, sinal de um homem já em busca de Deus. Foi um dos primeiros a reconhecer Jesus e, logo depois, levou o próprio irmão até Ele, um gesto que resume bem a sua fama de aproximar pessoas.
Nos Evangelhos, André aparece em cenas discretas, mas significativas. É ele quem apresenta a Jesus o menino dos cinco pães e dois peixes, antes da multiplicação, e quem, junto de Filipe, conduz alguns gregos que queriam ver o Mestre. Essas passagens desenham um discípulo atento, que percebe as pessoas e abre caminho para o encontro com Cristo.
Sobre o restante de sua vida, o que temos vem da tradição, e não das fontes do primeiro século. Relatos antigos falam de missão pela Grécia e por regiões ao redor do mar Negro, e de martírio na cidade de Patras. A imagem da cruz em forma de X, tão associada a ele, é uma criação bem posterior, medieval. Ainda assim, André permaneceu na memória cristã como o apóstolo que ensina que encontrar Jesus é, quase sempre, também apresentar Jesus a alguém.
Referências: Evangelho de João (Jo 1; 6; 12) e Evangelhos sinóticos; tradição da missão e do martírio nos Atos de André (obra apócrifa dos séculos II e III) e em autores cristãos antigos.
São Tiago Maior: o apóstolo do círculo íntimo e o primeiro dos Doze a morrer mártir

Tiago era filho de Zebedeu e irmão de João. Pescador na Galileia, foi chamado junto com o irmão enquanto consertava as redes. Jesus deu aos dois o apelido de filhos do trovão, sinal de um temperamento forte e ardente. Ele é chamado de Maior para distingui-lo de outro apóstolo com o mesmo nome, não por importância, mas provavelmente por ser mais velho ou ter sido chamado antes.
Tiago fazia parte do grupo mais próximo de Jesus, ao lado de Pedro e João. Esteve presente em momentos reservados a poucos, como a ressurreição da filha de Jairo, a Transfiguração e a agonia no Getsêmani. Essa proximidade fez dele uma testemunha privilegiada da vida do Mestre.
Sua morte é um dos dados mais firmes que temos sobre os apóstolos. O livro dos Atos registra que ele foi morto pela espada, por ordem do rei Herodes Agripa, por volta do ano 44. Assim, Tiago tornou-se o primeiro dos Doze a dar a vida pela fé. A tradição que o liga à Espanha e ao santuário de Compostela é bem mais tardia, surgida na Idade Média, e não encontra apoio nas fontes antigas, mas transformou seu nome em símbolo dos caminhos de fé.
Referências: Evangelhos (Mc 1; 3; 5; 9; 14) e Atos dos Apóstolos (At 12,2), que registra sua morte; a tradição de Compostela é medieval, a partir do século IX.
São João: o discípulo amado e a voz que atravessou o primeiro século

João, irmão de Tiago Maior e também filho de Zebedeu, era pescador na Galileia. Fez parte, com Pedro e o irmão, do grupo mais próximo de Jesus. O quarto Evangelho se refere a um discípulo amado, que a tradição identifica com ele, presente na Última Ceia e único apóstolo citado ao pé da cruz, onde recebeu de Jesus a missão de cuidar de Maria.
A tradição cristã ligou o nome de João a um conjunto grande de textos: o quarto Evangelho, três cartas e o Apocalipse. Os estudiosos discutem se todos saíram da mesma mão ou de uma comunidade formada em torno dele, mas o peso de sua figura na Igreja primitiva é inegável. Seu nome está associado à cidade de Éfeso, na Ásia Menor, onde teria vivido e ensinado por muitos anos.
Relatos antigos dizem que João foi o único dos Doze a não morrer mártir, alcançando idade avançada. Exilado por um tempo na ilha de Patmos, é lembrado como o apóstolo da contemplação e do amor. Sua longa vida fez dele uma espécie de ponte entre a geração que conviveu com Jesus e as primeiras comunidades cristãs já espalhadas pelo mundo.
Referências: Evangelho de João (Jo 13; 19; 20; 21); tradição sobre Éfeso e a velhice do apóstolo em autores como Irineu de Lião (Contra as Heresias) e Eusébio de Cesareia.
São Filipe: o discípulo que queria ver e ajudava outros a encontrar Jesus

Filipe era de Betsaida, a mesma cidade de Pedro e André. Foi chamado diretamente por Jesus e, logo em seguida, convidou Natanael com uma frase simples: vem e vê. Esse jeito de conduzir os outros ao encontro com Cristo marca a sua presença no Evangelho de João.
Filipe aparece em cenas em que faz perguntas sinceras. Diante da multidão faminta, calcula quanto custaria alimentar todos; na Última Ceia, pede a Jesus para ver o Pai e ouve uma das respostas mais profundas do Evangelho. É preciso não confundi-lo com Filipe, o diácono, outra figura do início da Igreja que aparece nos Atos dos Apóstolos.
A tradição situa sua missão na região da Frígia, na atual Turquia, especialmente na cidade de Hierápolis, onde teria morrido. Curiosamente, escavações recentes identificaram ali um túmulo atribuído a Filipe, o que reacendeu o interesse por sua memória. Sua figura permanece como a do discípulo que transforma a busca sincera em caminho de fé.
Referências: Evangelho de João (Jo 1; 6; 12; 14); tradição sobre Hierápolis em autores antigos e em achados arqueológicos recentes na atual Turquia.
São Bartolomeu: o apóstolo sincero que a tradição identifica com Natanael

Bartolomeu aparece nas listas dos Doze nos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas e nos Atos, mas nunca com muitos detalhes. A tradição cristã costuma identificá-lo com Natanael, o homem que Filipe leva a Jesus no Evangelho de João, embora essa identificação não seja certa. De Natanael, Jesus diz uma frase marcante: um homem em quem não há falsidade.
Se as duas figuras forem a mesma pessoa, temos um discípulo franco, quase cético no início, que se rende ao perceber que Jesus já o conhecia antes de qualquer palavra. Essa sinceridade tornou-se a marca associada ao seu nome.
Sobre sua vida posterior, há apenas tradições, que falam de missão em regiões do Oriente, como a Armênia e a Índia. Relatos de martírio, incluindo a imagem do apóstolo esfolado, pertencem a camadas lendárias mais tardias. O que permanece é a memória de uma fé transparente, sem disfarces.
Referências: Listas dos apóstolos (Mt 10; Mc 3; Lc 6; At 1) e o episódio de Natanael (Jo 1); tradições de missão e martírio em fontes cristãs posteriores, como Eusébio de Cesareia.
São Mateus: o cobrador de impostos que se tornou evangelista

Mateus trabalhava como cobrador de impostos em Cafarnaum quando Jesus o chamou. Essa profissão era malvista, pois ligava quem a exercia ao poder romano e à suspeita de desonestidade. Chamá-lo foi um gesto ousado de Jesus, que provocou críticas. Nos Evangelhos de Marcos e Lucas ele também é chamado de Levi.
A tradição atribui a Mateus o primeiro Evangelho, muito voltado ao público judeu e às ligações entre Jesus e as Escrituras de Israel. Um autor antigo, Papias, conta que Mateus teria reunido as palavras de Jesus em língua hebraica, uma notícia que os estudiosos discutem, mas que mostra o quanto seu nome estava ligado à memória escrita dos ensinamentos.
Sobre sua missão posterior, as tradições variam e falam de regiões como a Etiópia e a Pérsia, sem dados seguros. Mais do que os detalhes de sua morte, ficou a força de sua história: a de alguém que estava à margem e se tornou um dos guardiões da memória de Jesus.
Referências: Evangelhos (Mt 9; Mc 2; Lc 5); testemunho de Papias sobre os ditos de Jesus, transmitido por Eusébio de Cesareia; tradições posteriores sobre sua missão.
São Tomé: o apóstolo que duvidou e fez uma das maiores confissões de fé

Tomé é chamado de Dídimo, palavra que significa gêmeo. O Evangelho de João lhe dá relevo especial. Em um momento, ele se mostra corajoso e disposto a morrer com Jesus; em outro, pergunta com franqueza como poderiam conhecer o caminho.
Sua fama vem, sobretudo, do episódio após a ressurreição, quando duvida do anúncio dos companheiros e diz que só creria se visse. Ao encontrar Jesus ressuscitado, sua dúvida se transforma na declaração meu Senhor e meu Deus, uma das mais fortes de todo o Evangelho. Tomé deixou de ser apenas o que duvidou para se tornar o que creu profundamente.
Uma tradição antiga e viva liga Tomé à Índia. Comunidades cristãs do sul do país, conhecidas como cristãos de São Tomé, remontam sua origem à pregação do apóstolo e mantêm essa memória há muitos séculos. A imagem que fica é a de que a dúvida sincera pode ser o começo de uma fé madura.
Referências: Evangelho de João (Jo 11; 14; 20); os Atos de Tomé (obra apócrifa do século III) e a tradição viva dos cristãos de São Tomé, na Índia.
São Tiago Menor: o apóstolo discreto que a história muitas vezes confunde

Tiago, filho de Alfeu, é um dos apóstolos sobre quem os Evangelhos quase nada dizem. É chamado de Menor para distingui-lo de Tiago Maior, provavelmente por ser mais jovem ou de menor estatura, e não por ter menos valor.
Aqui surge um dos pontos mais interessantes para quem estuda as origens cristãs. Havia também um Tiago chamado irmão do Senhor, líder da comunidade de Jerusalém, ligado à carta de Tiago e morto por volta do ano 62, fato registrado pelo historiador judeu Flávio Josefo. Se esse Tiago é o mesmo filho de Alfeu, os estudiosos discutem até hoje. Essa confusão de nomes faz parte da própria história.
Para além do debate, Tiago Menor representa os discípulos que servem sem aparecer. Sua memória lembra que a fé se sustenta também pela fidelidade silenciosa de muitos que a história não registrou em detalhe.
Referências: Listas dos apóstolos (Mt 10; Mc 3; Lc 6; At 1); sobre Tiago, o irmão do Senhor, ver Gálatas 1,19 e os relatos de Flávio Josefo (Antiguidades Judaicas, livro 20) e de Hegesipo, transmitido por Eusébio.
São Judas Tadeu: o apóstolo das causas difíceis, distinto de Judas Iscariotes

Judas Tadeu precisa, antes de tudo, ser distinguido de Judas Iscariotes, aquele que traiu Jesus. Ele aparece nas listas dos apóstolos como Judas, filho de Tiago, e também é chamado Tadeu. No Evangelho de João, faz uma pergunta que abre espaço para Jesus falar de como Deus se manifesta a quem O ama.
A tradição atribui a ele uma das cartas do Novo Testamento, a Carta de Judas, embora essa autoria também seja discutida. Relatos antigos falam de missão em regiões do Oriente, muitas vezes junto do apóstolo Simão, e de martírio nessas terras.
A devoção que o tornou o santo das causas difíceis é bem mais recente e se espalhou fortemente nos últimos séculos. Talvez por seu nome ter sido, por muito tempo, confundido com o do traidor, ele acabou se tornando o intercessor daqueles que se sentem esquecidos ou sem saída.
Referências: Listas dos apóstolos (Lc 6; At 1) e o Evangelho de João (Jo 14,22); a Carta de Judas; tradições de missão e martírio em fontes cristãs posteriores.
São Simão: o zelote cujo ardor foi transformado em missão

Simão é identificado nas listas dos apóstolos por um apelido curioso: o Zelote, ou, em outra forma, o Cananeu. Ao contrário do que parece, Cananeu aqui não indica a terra de Canaã, mas vem de uma palavra aramaica que significa justamente zeloso. Os dois nomes, portanto, apontam para a mesma coisa: um homem de grande ardor.
Esse apelido pode sugerir que ele tivesse ligação com grupos que sonhavam com a libertação de Israel, ou apenas indicar um temperamento apaixonado. De qualquer modo, chama a atenção que Jesus tenha reunido, no mesmo grupo, um antigo cobrador de impostos, como Mateus, e um homem marcado pelo zelo, como Simão.
Sobre sua vida depois, há poucas informações seguras, apenas tradições que falam de pregação em terras distantes e de martírio. Simão permanece como sinal de que a energia e a paixão humanas, quando encontradas por Cristo, podem se transformar em serviço.
Referências: Listas dos apóstolos (Mt 10; Mc 3; Lc 6; At 1), onde aparecem os títulos Zelote e Cananeu; tradições posteriores sobre sua missão.
São Matias: o apóstolo escolhido para completar os Doze

Matias tem uma história singular: ele não foi chamado por Jesus durante a vida pública, mas escolhido depois, para ocupar o lugar deixado por Judas Iscariotes. O livro dos Atos conta que a comunidade buscava alguém que tivesse acompanhado Jesus desde o batismo de João até a ressurreição, para ser testemunha de tudo.
A escolha foi feita por sorteio, entre dois candidatos, num gesto de oração e confiança em Deus. Assim, o número simbólico de doze apóstolos, ligado às doze tribos de Israel, foi restaurado antes de a Igreja começar sua missão pública em Pentecostes.
Sobre sua vida posterior, sobraram apenas tradições, que falam de pregação em regiões como a Judeia e terras mais distantes. Matias representa aqueles que Deus prepara no silêncio e chama no momento certo, lembrando que a missão da Igreja é maior do que os nomes mais famosos.
Referências: Atos dos Apóstolos (At 1,15-26), única fonte bíblica sobre sua escolha; tradições posteriores registradas por autores como Clemente de Alexandria e Eusébio de Cesareia.
São Paulo: o perseguidor que se tornou o apóstolo dos povos

Paulo, nascido em Tarso, na atual Turquia, era judeu, fariseu e cidadão romano. Antes de sua conversão, chamava-se Saulo e perseguia com dureza os primeiros seguidores de Jesus. Tudo mudou na estrada para Damasco, quando teve uma experiência do Cristo ressuscitado que virou sua vida do avesso.
Ele não fez parte dos Doze e não conviveu com Jesus durante a vida pública. Ainda assim, tornou-se o grande apóstolo dos povos não judeus, levando o Evangelho por cidades do mundo grego e romano em longas viagens missionárias. Suas cartas, escritas por volta dos anos 50, estão entre os textos mais antigos do Novo Testamento, anteriores até aos Evangelhos.
Justamente por causa dessas cartas, Paulo é, historicamente, o apóstolo sobre quem mais sabemos com segurança. A tradição afirma que ele morreu mártir em Roma, no tempo de Nero. Sua trajetória mostra, de forma marcante, que a graça de Deus pode alcançar e transformar até quem parecia mais distante.
Referências: Atos dos Apóstolos (At 9; 13 a 28) e as cartas de Paulo, em especial as reconhecidas como autênticas (Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon); tradição do martírio em Roma em 1 Clemente e Eusébio.
Mulheres importantes na caminhada de Jesus
Além de Maria Madalena, os Evangelhos e a tradição recordam outras mulheres decisivas na caminhada de Jesus, como mães, discípulas, testemunhas e anunciadoras, presentes desde a Galileia até a manhã da Ressurreição.
Maria, Mãe de Jesus: a primeira e mais fiel discípula

Maria era uma jovem de Nazaré, na Galileia, quando, segundo o Evangelho de Lucas, aceitou o convite de Deus para ser mãe de Jesus. Seu sim abre toda a história do Evangelho. Ela gerou, criou e acompanhou Jesus, esteve nas bodas de Caná e permaneceu de pé junto à cruz, quando quase todos haviam fugido.
Mais do que um papel passivo, os Evangelhos mostram Maria como alguém que guarda e medita os acontecimentos no coração. Depois da ressurreição, ela aparece em oração com os discípulos, no grupo que dará origem à Igreja. Por isso é chamada, com razão, a primeira discípula.
Muitas devoções e verdades de fé sobre Maria se desenvolveram ao longo dos séculos, na tradição da Igreja. O retrato mais antigo, porém, é o dos Evangelhos: uma mulher de fé simples e firme, que confiou em Deus mesmo sem entender tudo e permaneceu fiel até a dor.
Referências: Evangelhos de Lucas (Lc 1 e 2) e de João (Jo 2; Jo 19,25-27); Atos dos Apóstolos (At 1,14).
Santa Maria Madalena: a apóstola dos apóstolos

Maria Madalena recebe esse nome por ser natural de Magdala, uma cidade às margens do mar da Galileia. O Evangelho de Lucas conta que ela foi curada por Jesus e passou a segui-lo, ajudando a sustentar a missão com seus bens. Esteve entre as mulheres que acompanharam Jesus até a cruz.
Seu momento mais importante é a manhã da ressurreição. Segundo o Evangelho de João, ela é a primeira a encontrar o túmulo vazio e a ver Jesus ressuscitado, recebendo a missão de anunciar aos demais. Por isso a tradição a chama de apóstola dos apóstolos, título reforçado por uma decisão da Igreja em 2016, que elevou sua memória litúrgica.
Vale corrigir um engano antigo: por muito tempo, no Ocidente, ela foi confundida com uma mulher pecadora e com Maria de Betânia, uma mistura que remonta a uma interpretação do papa Gregório Magno, no fim do século VI. A Igreja do Oriente nunca fez essa confusão, e hoje ela é reconhecida como a testemunha fiel e corajosa da Páscoa.
Referências: Evangelhos (Lc 8,1-3; Mc 15; Jo 19; Jo 20,1-18); decreto da Congregação para o Culto Divino, de 2016, que a nomeia apóstola dos apóstolos.
Santa Maria de Betânia: a que escolheu ficar aos pés do Senhor

Maria de Betânia era irmã de Marta e de Lázaro, e sua casa, próxima de Jerusalém, era um lugar de amizade para Jesus. O Evangelho de Lucas a apresenta sentada aos pés do Mestre, ouvindo com atenção, enquanto Marta se ocupava do serviço.
No Evangelho de João, é ela quem unge os pés de Jesus com um perfume caríssimo, pouco antes da Paixão, um gesto de amor e de intuição do que estava por vir. É importante não confundi-la com Maria Madalena, pois são figuras distintas.
Maria de Betânia ficou como imagem da vida contemplativa, daquela que sabe que estar com Deus é o essencial. Sua história valoriza a escuta, o silêncio e a intimidade com o Senhor no meio da vida cotidiana.
Referências: Evangelhos de Lucas (Lc 10,38-42) e de João (Jo 11; Jo 12,1-8).
Santa Marta: fé firme e serviço generoso

Marta é lembrada por receber Jesus em sua casa, em Betânia, e por seu jeito ativo e prático. A cena em que se queixa por estar sozinha no serviço, enquanto a irmã ouve Jesus, tornou-se célebre. Jesus a convida a não se afogar em preocupações, sem nunca desprezar o seu cuidado.
Há, porém, um momento em que Marta mostra uma fé impressionante. Diante da morte do irmão Lázaro, ela declara acreditar que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. É uma confissão de fé tão forte quanto a de Pedro, feita por uma mulher, no meio da dor.
Marta representa tantas pessoas que sustentam a vida dos outros com trabalho e dedicação. Em 2021, a Igreja passou a celebrar no mesmo dia Marta, Maria e Lázaro, reconhecendo a fé dessa família amiga de Jesus.
Referências: Evangelhos de Lucas (Lc 10,38-42) e de João (Jo 11,1-45); decreto da Congregação para o Culto Divino, de 2021, sobre a memória de Marta, Maria e Lázaro.
Santa Joana: a mulher da corte que sustentou a missão

Joana é citada pelo Evangelho de Lucas entre as mulheres que acompanhavam Jesus. Um detalhe chama a atenção: ela era esposa de Cuza, administrador do rei Herodes Antipas. Ou seja, era uma mulher ligada à corte, de boa posição social.
Mesmo nesse ambiente, Joana colocou seus recursos a serviço da missão de Jesus, ajudando a sustentá-la. Isso revela algo importante sobre o grupo em torno de Jesus: ele reunia pessoas de origens muito diferentes, inclusive mulheres de influência.
Ela também é lembrada entre as mulheres que foram ao túmulo na manhã da ressurreição e levaram o anúncio aos apóstolos. Joana mostra que apoiar a missão, com o que se tem e o que se é, também faz parte do seguimento de Jesus.
Referências: Evangelho de Lucas (Lc 8,1-3 e Lc 24,10).
Santa Salomé: a mãe de apóstolos que seguiu Jesus até a cruz

Salomé é lembrada pela tradição como esposa de Zebedeu e mãe dos apóstolos Tiago Maior e João. Essa identificação nasce da comparação entre os Evangelhos, que citam, nas mesmas cenas, ora a mãe dos filhos de Zebedeu, ora uma mulher chamada Salomé.
Ela aparece primeiro num episódio delicado, quando pede a Jesus lugares de honra para os filhos. Jesus corrige o pedido, ensinando que grandeza é serviço. A história de Salomé, porém, não para aí.
Ela seguiu Jesus desde a Galileia, esteve entre as mulheres junto à cruz e foi uma das que, na manhã da Páscoa, foram ao túmulo com perfumes. Do desejo de destaque à fidelidade humilde, sua caminhada é a de um amor de mãe que amadurece no seguimento de Cristo.
Referências: Evangelhos de Mateus (Mt 20,20-28; Mt 27,55-56) e de Marcos (Mc 15,40-41; Mc 16,1).
Santa Susana: a discípula quase anônima que sustentou o Evangelho

Susana é citada uma única vez, no Evangelho de Lucas, entre as mulheres que acompanhavam Jesus e ajudavam a sustentar a missão com seus bens. Não sabemos mais nada sobre ela, e é justamente isso que a torna significativa.
Sua breve menção representa muitas outras mulheres que seguiram Jesus e cujos nomes a história não guardou. Elas cuidaram, acompanharam e sustentaram o grupo, muitas vezes sem qualquer destaque.
Susana lembra que a fé se apoia também no serviço silencioso de tantas pessoas. Sua presença discreta no Evangelho dá rosto a todos os que fazem o bem sem esperar reconhecimento.
Referências: Evangelho de Lucas (Lc 8,1-3).
A Samaritana no poço: a mulher que se tornou anunciadora
O Evangelho de João narra o encontro de Jesus com uma mulher de Samaria junto ao poço de Jacó. Já era incomum, naquele tempo, que um mestre judeu conversasse abertamente com uma mulher samaritana, pois havia forte rivalidade entre os dois povos. Jesus, porém, atravessa essa barreira.
No diálogo, Ele fala de uma água viva e toca com verdade a história dela, sem humilhá-la. Transformada, a mulher deixa o cântaro e corre para chamar sua cidade, e muitos passam a crer por causa do seu testemunho. Ela se torna, assim, uma das primeiras anunciadoras do Evangelho.
A tradição do Oriente cristão deu-lhe o nome de Fotina, que significa a iluminada, e a venera como santa. Sua história mostra que um único encontro sincero com Jesus pode mudar uma vida e alcançar toda uma comunidade.
Referências: Evangelho de João (Jo 4,1-42); tradição do Oriente cristão sobre Santa Fotina.
Fontes e critérios (nota editorial)
O texto distingue sempre o que vem da Bíblia do que vem da tradição posterior. As principais fontes históricas usadas, além do Novo Testamento, são autores cristãos antigos como Papias, Irineu de Lião, Clemente de Alexandria, Hegesipo e, sobretudo, Eusébio de Cesareia, cuja História Eclesiástica reúne muitas dessas memórias; para alguns dados, recorre-se também ao historiador judeu Flávio Josefo e a obras apócrifas como os Atos de André e os Atos de Tomé, sempre identificadas como tais.
